"E o grão de tão pequeno
Ser tão grande
O que a gente é
Ter esse destino
De pessoa que sonhou..."
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
domingo, 14 de agosto de 2011
Para todas as pessoas.
Todo mundo deveria parar e pensar sobre si mesmo por alguns momentos. Suponho que essa pesquisa ajudaria a resolver descontentes falhas que como humanos temos e não podemos fugir disso. Pensar se maioria das coisas de nossa vida está ocorrendo bem, se estamos fazendo realmente o que vale apena para nós, se fazemos com o coração ou damos razão à mente. Se somos duros, por que somos, como devemos reagir a isso. Se somos alegres e limpos no sentido de leves, como fazemos para limpar tudo o que também deseja ser assim, de que forma fazemos isso, para quem fazemos isso, com o que devemos fazer isso.
Essas coisas são o que todos deveríamos fazer e pouca gente faz.
Ser duro é ser frio, amargo e não deixar brechas para emoções avassaladoras. Não consigo entender as pessoas que preferem ser literalmente grossas se esquivando de suas reais limitações usando a ignorância como escudo. É imodesto não aceitar a verdade e é corriqueiro não saber lidar com ela. Cada qual com seus pontos de fraqueza, estamos à mercê de rejeitarmos as afrontas de nossa personalidade que conforta o corpo quente, sou contra não pensar sobre uma possível melhoria de nossa relação com as coisas que existem sem motivo algum, só por existirem.
Deixo a mensagem para a minha sensatez: "Desejo ter resiliência para pensar sempre e penso ser este o caminho mais eficiente nos meus descontentamentos e tristezas a fim de sobreviver às possíveis travas que o negar os fatos oferece. Quero ter em mim a sensatez e a sobriedade de agir constantemente como pesquisadora do projeto em felicidade chamado minha mente."
"Pense numa nova história para a sua vida, e acredite nela."
Essas coisas são o que todos deveríamos fazer e pouca gente faz.
Ser duro é ser frio, amargo e não deixar brechas para emoções avassaladoras. Não consigo entender as pessoas que preferem ser literalmente grossas se esquivando de suas reais limitações usando a ignorância como escudo. É imodesto não aceitar a verdade e é corriqueiro não saber lidar com ela. Cada qual com seus pontos de fraqueza, estamos à mercê de rejeitarmos as afrontas de nossa personalidade que conforta o corpo quente, sou contra não pensar sobre uma possível melhoria de nossa relação com as coisas que existem sem motivo algum, só por existirem.
Deixo a mensagem para a minha sensatez: "Desejo ter resiliência para pensar sempre e penso ser este o caminho mais eficiente nos meus descontentamentos e tristezas a fim de sobreviver às possíveis travas que o negar os fatos oferece. Quero ter em mim a sensatez e a sobriedade de agir constantemente como pesquisadora do projeto em felicidade chamado minha mente."
"Pense numa nova história para a sua vida, e acredite nela."
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Um conto que eu conto coisas de Barreiros.
Lá em Barreiros tem umas coisas que só em cidade de interior tem. É um povo que vive sentado na calçada da minha avó olhando a vida dos outros enquanto as moças crentes passam pra irem orar na igreja. É um povo que gosta de dormir depois do almoço pra fazer digestão e ficar o resto da tarde fofocando da vida alheia.
Lá em Barreiros o comércio é pequeno, mas tem tanta gente desconhecida que trabalha nele que você pensa até que esse povo é de fora. E no mercado público tem umas figuras muito engraçadas que passam o dia ouvindo brega rasgado enquanto tomam uma pinguinha dividindo com o santo pra se animar.
Muita coisa acontece em Barreiros, mas só os moradores de lá não vêem. Tem marmanjo brigando por causa de 10 centavos e dizendo que vai matar o outro com uma facada no meio dos quartos. E teve muita morte por causa de mulher também. Tem um tal de Damião Bem, que esse, num tem cristão dentro de Barreiros que não conheça, só eu. Disse que o homem come tanto, mas tanto, que quando ele termina de comer e sai cambaleando de tão pesado, você diz que ele vai morrer, aí ele escuta, volta tropeçando, chega pra você e diz assim: "só se for de fome, dona moça, só se for de fome..."
Pois é, essas coisas só existem lá na minha terra. Em Barreiros você leva menos tempo pra chegar em casa, e sempre encontra um ou outro conhecido no trajeto, isso quando o número não triplica e você perde mais de hora na rua conversando água.
Agora tem uma coisa interessante, que quando você sai de lá pra vir estudar em Recife e volta, parece que enricou, porque se você não falar com o povo, ninguém fala com você. Vez ou outra lhe dão aquele sorrisinho aguado de quem tá com medo de perguntar como é a vida na cidade grande, se eles soubessem...
Mas é das coisas marcantes de Barreiros que eu tô falando. Olhe, veja só, tem uma pedra da moça que diz a lenda, se você passar por perto do rio em noite de lua cheia, vai ver uma moça bonita tomando banho pelada e se você ficar espiando ela se banhar, vai virar pedra também.
Só em Barreiros tem Turma da Latinha com gente mijado nas calças no meio da rua, Bloco Lança Perfume com fantasias bonitas pra gente ver e Pega PKPá com o povo dos sexos trocados. Só em Barreiros tem macaxeira com charque de manhãzinha no mercado depois da noite de farra. E é só em Barreiros que você faz conta e passa anos sem pagar, e o cara da loja ainda lhe vende por cima. É um tal de prego no bar de Jacó, passada na praça da nova fonte, ver de longe a igreja matriz e levar os meninos pra correr no parque em dia de festa. Tem natal com árvore armada, mesa cheia de comida, cara de mãe cansada de tanto cozinhar e champanhe e vinho até encher o papo.
Lá em Barreiros tem amigo da gente casando que a gente nem sabe. Tem penca de mulher grávida parindo tudo no mesmo tempo e moça fugindo quando o galo canta as 3h da manhã. Tem pai dizendo que "você num me enrole, menina!" e os velhos da sua rua contando vantagem encima de tragédias. Tem sempre aquele mercadinho perto da sua casa pra você comprar cocada e cocorote de Mocinha, isso quando ela não lhe chega com uma bolsa de confeito sem nem você pedir. Tem rapaz que era menino quando você saiu de lá e sempre a mesma rádio transmitida para todo o litoral sul tocando as mesmas músicas 8 vezes por dia. E tem recadinho de amor pela rádio, e de saudade da mãe por gente que mora no engenho Camucim. Tem sempre aquele malandro que chega pra lhe chamar de amigo e pede um cigarrinho de vez em quando.
Olhe que lá em Barreiros tem uma trama de gente intrigueira falando da sua roupa, quando você passa. E tem manuê, castanha, canjica e pamonha que lembram o cheiro da casa da sua avó em tempo de São João, milho assado, milho cozido, beiju de massa, beiju de goma, bolinho de goma, farinha branquinha, feijão de corda, feijão branco, charque da boa, queijo do bom, acerola, cajá, seriguela, maracujá, mamão, goiaba, tudo fresquinho pra você fazer suco na hora do almoço e mãe dizendo pra você não chupar manga e depois beber leite quando chega quente da rua.
Lá em Barreiros todo dia tem cara de feriado, porque curiosamente, lá é sempre dia de comemorar. E tem sensação boa depois do banho, de casa cheirosinha e ventinho bom batendo no seu rosto, não tem cheiro de fumaça invadindo a casa toda hora.
Lá em Barreiros com certeza é o melhor lugar de se viver. Tem um ar de cama de mãe quando você olha pro quarto dela, e alguma coisa lhe puxa pra deitar no lençol limpinho que ela acabou de trocar. E tem os gritos da sua mãe reclamando com a sua irmã por causa das bagunças. Tem cachorro que late, mas você não tem medo dele, porque são do seu pai. Tem contos de caça e pesca, tem tatu e tejo, e tamanduá também. Tem os vizinhos mais velhos rezando pros santos e procissão na rua com o padre e as beatas cantando alto. Tem chuva que nunca estraga carnaval fora de época porque todo mundo continua dançando na lama.
Lá em Barreiros a vida é muito boa, e ai de quem me disser que pra lá não volta nunca mais.
Lá em Barreiros o comércio é pequeno, mas tem tanta gente desconhecida que trabalha nele que você pensa até que esse povo é de fora. E no mercado público tem umas figuras muito engraçadas que passam o dia ouvindo brega rasgado enquanto tomam uma pinguinha dividindo com o santo pra se animar.
Muita coisa acontece em Barreiros, mas só os moradores de lá não vêem. Tem marmanjo brigando por causa de 10 centavos e dizendo que vai matar o outro com uma facada no meio dos quartos. E teve muita morte por causa de mulher também. Tem um tal de Damião Bem, que esse, num tem cristão dentro de Barreiros que não conheça, só eu. Disse que o homem come tanto, mas tanto, que quando ele termina de comer e sai cambaleando de tão pesado, você diz que ele vai morrer, aí ele escuta, volta tropeçando, chega pra você e diz assim: "só se for de fome, dona moça, só se for de fome..."
Pois é, essas coisas só existem lá na minha terra. Em Barreiros você leva menos tempo pra chegar em casa, e sempre encontra um ou outro conhecido no trajeto, isso quando o número não triplica e você perde mais de hora na rua conversando água.
Agora tem uma coisa interessante, que quando você sai de lá pra vir estudar em Recife e volta, parece que enricou, porque se você não falar com o povo, ninguém fala com você. Vez ou outra lhe dão aquele sorrisinho aguado de quem tá com medo de perguntar como é a vida na cidade grande, se eles soubessem...
Mas é das coisas marcantes de Barreiros que eu tô falando. Olhe, veja só, tem uma pedra da moça que diz a lenda, se você passar por perto do rio em noite de lua cheia, vai ver uma moça bonita tomando banho pelada e se você ficar espiando ela se banhar, vai virar pedra também.
Só em Barreiros tem Turma da Latinha com gente mijado nas calças no meio da rua, Bloco Lança Perfume com fantasias bonitas pra gente ver e Pega PKPá com o povo dos sexos trocados. Só em Barreiros tem macaxeira com charque de manhãzinha no mercado depois da noite de farra. E é só em Barreiros que você faz conta e passa anos sem pagar, e o cara da loja ainda lhe vende por cima. É um tal de prego no bar de Jacó, passada na praça da nova fonte, ver de longe a igreja matriz e levar os meninos pra correr no parque em dia de festa. Tem natal com árvore armada, mesa cheia de comida, cara de mãe cansada de tanto cozinhar e champanhe e vinho até encher o papo.
Lá em Barreiros tem amigo da gente casando que a gente nem sabe. Tem penca de mulher grávida parindo tudo no mesmo tempo e moça fugindo quando o galo canta as 3h da manhã. Tem pai dizendo que "você num me enrole, menina!" e os velhos da sua rua contando vantagem encima de tragédias. Tem sempre aquele mercadinho perto da sua casa pra você comprar cocada e cocorote de Mocinha, isso quando ela não lhe chega com uma bolsa de confeito sem nem você pedir. Tem rapaz que era menino quando você saiu de lá e sempre a mesma rádio transmitida para todo o litoral sul tocando as mesmas músicas 8 vezes por dia. E tem recadinho de amor pela rádio, e de saudade da mãe por gente que mora no engenho Camucim. Tem sempre aquele malandro que chega pra lhe chamar de amigo e pede um cigarrinho de vez em quando.
Olhe que lá em Barreiros tem uma trama de gente intrigueira falando da sua roupa, quando você passa. E tem manuê, castanha, canjica e pamonha que lembram o cheiro da casa da sua avó em tempo de São João, milho assado, milho cozido, beiju de massa, beiju de goma, bolinho de goma, farinha branquinha, feijão de corda, feijão branco, charque da boa, queijo do bom, acerola, cajá, seriguela, maracujá, mamão, goiaba, tudo fresquinho pra você fazer suco na hora do almoço e mãe dizendo pra você não chupar manga e depois beber leite quando chega quente da rua.
Lá em Barreiros todo dia tem cara de feriado, porque curiosamente, lá é sempre dia de comemorar. E tem sensação boa depois do banho, de casa cheirosinha e ventinho bom batendo no seu rosto, não tem cheiro de fumaça invadindo a casa toda hora.
Lá em Barreiros com certeza é o melhor lugar de se viver. Tem um ar de cama de mãe quando você olha pro quarto dela, e alguma coisa lhe puxa pra deitar no lençol limpinho que ela acabou de trocar. E tem os gritos da sua mãe reclamando com a sua irmã por causa das bagunças. Tem cachorro que late, mas você não tem medo dele, porque são do seu pai. Tem contos de caça e pesca, tem tatu e tejo, e tamanduá também. Tem os vizinhos mais velhos rezando pros santos e procissão na rua com o padre e as beatas cantando alto. Tem chuva que nunca estraga carnaval fora de época porque todo mundo continua dançando na lama.
Lá em Barreiros a vida é muito boa, e ai de quem me disser que pra lá não volta nunca mais.
domingo, 4 de outubro de 2009
Quando o amor é verdadeiro não se tem dúvidas.
Acredito que o amor pra ser amor de verdade tem que fechar os nossos olhos. Que sentir atração por outras pessoas é infidelidade a partir de quando se sente. E que traições acontecem todo dia em todos os lugares se a gente parar bem pra pensar, e a culpa não é nossa. Mas se o amor nos deixa cegos, e o que os olhos não vêem o coração não sente, então não somos traídos?
Me desgastei de tanto pensar nisso e temer ficar sozinha na vida, porque pra mim o amor deve ser um sentimento tão verdadeiro que você é incapaz de olhar outra pessoa com intenções atrativas. Entendo o amor sendo só o amor, e as coisas que o complementam sendo só coisas complementares. Acho que o amor nunca deveria brigar por pouco nem tentar possuir o todo. A gente não pode dar tudo, senão perde a identidade, e perdendo a identidade perdemos o amor.
O amor tem de ser possível, porque o romantismo possível ao amor se faz a dois, e quando se sabe que é impossível construir um sentimento junto com alguém, o amor deixa de existir. Porque pra ser amor, também tem que haver concretismo. Não gosto de saber de traições, elas me fazem entrar na situação e sempre me coloco como vítima. O amor tem de ser sincero para não magoar as pessoas.
Talvez o amor nunca deixe de existir. Mas talvez ele se disperse tanto que para reconhecê-lo a pessoa deverá procurar muito, da maneira que achar mais eficaz. Mas talvez o amor se renove e continue original, e aí, permanecer nos primórdios traria de vez a pureza da verdade.
Me desgastei de tanto pensar nisso e temer ficar sozinha na vida, porque pra mim o amor deve ser um sentimento tão verdadeiro que você é incapaz de olhar outra pessoa com intenções atrativas. Entendo o amor sendo só o amor, e as coisas que o complementam sendo só coisas complementares. Acho que o amor nunca deveria brigar por pouco nem tentar possuir o todo. A gente não pode dar tudo, senão perde a identidade, e perdendo a identidade perdemos o amor.
O amor tem de ser possível, porque o romantismo possível ao amor se faz a dois, e quando se sabe que é impossível construir um sentimento junto com alguém, o amor deixa de existir. Porque pra ser amor, também tem que haver concretismo. Não gosto de saber de traições, elas me fazem entrar na situação e sempre me coloco como vítima. O amor tem de ser sincero para não magoar as pessoas.
Talvez o amor nunca deixe de existir. Mas talvez ele se disperse tanto que para reconhecê-lo a pessoa deverá procurar muito, da maneira que achar mais eficaz. Mas talvez o amor se renove e continue original, e aí, permanecer nos primórdios traria de vez a pureza da verdade.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
O peso da sua cabeça.
Qual o peso que você carrega? Quanto ainda vai ter de carregar? Quanto você consegue aguentar? Por que não soltar tudo e ir embora? Se não vai embora, por que então é que vai ficar? Qual o tamanho do seu pecado? É realmente pecado? E se não for, o que então será? Me responda, qual o peso nas suas costas? O que seus ombros suportam? Como você consegue andar? Onde está a pessoa que vai lhe ajudar? Quem vai dividir esse fardo com você? Me diga, qual o peso que você carrega? Quantas vezes vai ter de parar pra descansar? Quem foi que lhe disse que iria ajudar? Quantas pessoas param pra te perguntar qual o peso que você carrega? Onde foi parar a parte maneira? Quem te roubou o direito de ser leve? Por que você ainda continua a carregar? Qual será o seu destino? O que você vai ser quando crescer? Se já cresceu, então, o que foi quando mais jovem? O que você ainda vai ser? Qual o tamanho da sua ambição? Por que ela não te deixa largar esse pesar? Qual a face da sua vitória? Quem te falou do caos? Onde é que ele não está? Até onde você pretende calar? Por que você não grita? Por que não pede para alguém lhe ajudar? Quem te disse que tem de ser assim? Me diga, onde foi parar a sua filosofia? Você sabe o que é filosofar? O que está acima da sua cervical? Quantos quilos têm o seu dorso? Quantos centímetros você ainda vai aguentar? Qual a parada de ônibus mais próxima? Se precisa então sentar, por que você não pára? Quer ir mais longe? Se esse longe não é perto, então por que não ir mais rápido? Se não anda, logo não corre, por que não andar correndo? Onde está quem te colocou aqui? Quanto vale levar tanta carga? Se não volta pro interior, então quer ficar aqui? Mas se aqui está ruim, por que motivo não reiniciar? Quem foi a sua referência? Que curso você vai fazer? Quando vai se livrar de tanta dor? Por que não olhar as estrelas? Me diga, qual o peso do seu mundo? Quantos mundos ainda cabe em você? Quando vai parar de se cansar? O peso da sua cabeça, onde ele está? Qual o peso da sua cabeça, me diga, ou então pare de carregar.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
E como para ele, eu dediquei a mim mesma, momentos de intimidade.

Foi uma fuga alucinante. Senti seus olhos em mim quando, apenas o que me cobria era uma toalha cor-de-rosa toda desfiada. E da mesma forma que outrora me vestiria, o fiz rapidamente, observando pelo espelho aquele olhar quente malicioso a me querer. A vontade foi de me despir da toalha e usar a lingerie preta que comprei semana passada. Vi o respingar do meu cabelo molhado embaçar a face do espelho, e me detive ali, parada, pela cobiça do meu corpo àquele mirar farto de sexualidade e desejo que entre um espaço e outro ficava mais nítido. Parei, e tentei sentir o arrepio do toque da língua na minha pele morna, ainda do banho. Um frio dorsal misteriosamente me fez estremecer as pernas. Eu deslizei e caí sobre a cama, afundando pesadamente, como quem mergulha num mar calmo. Segundos depois, estava de novamente de pé, precisava trabalhar. Vesti-me e saí correndo, com medo que o espelho viesse me devorar.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Meu reino por um amor.
O amor constrói coisas que até então, pouca gente ousaria acreditar que elas pudessem realmente permanecer. A minha avó dizia isso. E provou que com um amor, vem também a responsabilidade de se doar em tudo para conservar e multiplicar esse afeto da forma mais pura possível. Ela amava tanto o meu avô que dizia não saber se comportar quando ele se fosse, mas depois que isso aconteceu, ela soube o que fazer para continuarem conversando. Por noites em que dormi na cama dela (aquela cama sempre cheirosa e fofinha), eu a ouvia falando em voz baixa com alguém que eu não identifiquei até entender sobre o que ela conversava. Eram coisas do tipo: "devo fazer carne assada ou frango pro almoço de amanhã?", "você viu o que o Jornal Nacional mostrou hoje?", "como será que as nossas filhas estão nas suas casas?". Uma vez, levantei e fiquei observando ela olhar para o lado conversando, mas quando me viu, deu um sorriso e me pediu pra dormir novamente. O meu avô era um grande homem. Me ensinou a reciclar papéis, ouvir Luiz Gonzaga e me mostrou Raul. A minha avó, sempre doce, me costurava as roupas descozidas e me ensinou a rezar. Eu também adquiri o hábito de comer muito doce com meu avô e aprendi a enfiar a mão no saco de farinha branquinha (desde pequena ele me deixava fazer isso no seu mercadinho), daquelas que só se vê no interior. Eu sinto muita saudade deles. De como a família era antigamente, tão tradicionalmente unida e festiva. Não havia um Natal, ano novo, Santo Antonio, São João ou São Pedro em que a casa dos meus avós não cheirasse a comida boa, desde o pernil do fim de ano, até as pamonhas quentinhas derretendo na boca da gente. Eu, meninota, gostava de descascar as espigas com minha mãe e tias pra ver se achava aquele bichinho do milho pra brincar. E quando vozinho chegava com as compras sertanejas, meu beiju e minha castanha, religiosamente fresquinhos, ele trazia sempre. Foi um tempo bom a minha infância. Hoje a gente não vê mais isso, com a perda da minha avó, o último laço que colava um filho no outro se afrouxou, e não temos mais aquelas mesas repletas de guloseimas da época ou aquele cheiro do tempero bom e forte, nem mesmo aquelas músicas de manhãzinha antes do café. Eu nem consigo mais sentir o caminho de volta pra casa que o meu avô percorria comigo depois da escola. Mas ainda há a saudade que não me deixa apagar as vozes deles, o amor que os cercava e desinfectava tudo. Ainda há os móveis, as roupas, a casa. E tem também as músicas que me fazem lembrar deles, cada um com a sua delicadeza. Ele, um contra-boêmio, que ouvia Nelson Rodrigues cantar "Naquela Mesa", ela, uma devota mulher do Lar, vendo o especial de Roberto Carlos na tv. Esse reino, ninguém consegue tomar. E como é maravilhoso, que fiz parte dele.
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