segunda-feira, 20 de abril de 2009

Meu reino por um amor.

O amor constrói coisas que até então, pouca gente ousaria acreditar que elas pudessem realmente permanecer. A minha avó dizia isso. E provou que com um amor, vem também a responsabilidade de se doar em tudo para conservar e multiplicar esse afeto da forma mais pura possível. Ela amava tanto o meu avô que dizia não saber se comportar quando ele se fosse, mas depois que isso aconteceu, ela soube o que fazer para continuarem conversando. Por noites em que dormi na cama dela (aquela cama sempre cheirosa e fofinha), eu a ouvia falando em voz baixa com alguém que eu não identifiquei até entender sobre o que ela conversava. Eram coisas do tipo: "devo fazer carne assada ou frango pro almoço de amanhã?", "você viu o que o Jornal Nacional mostrou hoje?", "como será que as nossas filhas estão nas suas casas?". Uma vez, levantei e fiquei observando ela olhar para o lado conversando, mas quando me viu, deu um sorriso e me pediu pra dormir novamente. O meu avô era um grande homem. Me ensinou a reciclar papéis, ouvir Luiz Gonzaga e me mostrou Raul. A minha avó, sempre doce, me costurava as roupas descozidas e me ensinou a rezar. Eu também adquiri o hábito de comer muito doce com meu avô e aprendi a enfiar a mão no saco de farinha branquinha (desde pequena ele me deixava fazer isso no seu mercadinho), daquelas que só se vê no interior. Eu sinto muita saudade deles. De como a família era antigamente, tão tradicionalmente unida e festiva. Não havia um Natal, ano novo, Santo Antonio, São João ou São Pedro em que a casa dos meus avós não cheirasse a comida boa, desde o pernil do fim de ano, até as pamonhas quentinhas derretendo na boca da gente. Eu, meninota, gostava de descascar as espigas com minha mãe e tias pra ver se achava aquele bichinho do milho pra brincar. E quando vozinho chegava com as compras sertanejas, meu beiju e minha castanha, religiosamente fresquinhos, ele trazia sempre. Foi um tempo bom a minha infância. Hoje a gente não vê mais isso, com a perda da minha avó, o último laço que colava um filho no outro se afrouxou, e não temos mais aquelas mesas repletas de guloseimas da época ou aquele cheiro do tempero bom e forte, nem mesmo aquelas músicas de manhãzinha antes do café. Eu nem consigo mais sentir o caminho de volta pra casa que o meu avô percorria comigo depois da escola. Mas ainda há a saudade que não me deixa apagar as vozes deles, o amor que os cercava e desinfectava tudo. Ainda há os móveis, as roupas, a casa. E tem também as músicas que me fazem lembrar deles, cada um com a sua delicadeza. Ele, um contra-boêmio, que ouvia Nelson Rodrigues cantar "Naquela Mesa", ela, uma devota mulher do Lar, vendo o especial de Roberto Carlos na tv. Esse reino, ninguém consegue tomar. E como é maravilhoso, que fiz parte dele.

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