quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um conto que eu conto coisas de Barreiros.

Lá em Barreiros tem umas coisas que só em cidade de interior tem. É um povo que vive sentado na calçada da minha avó olhando a vida dos outros enquanto as moças crentes passam pra irem orar na igreja. É um povo que gosta de dormir depois do almoço pra fazer digestão e ficar o resto da tarde fofocando da vida alheia.
Lá em Barreiros o comércio é pequeno, mas tem tanta gente desconhecida que trabalha nele que você pensa até que esse povo é de fora. E no mercado público tem umas figuras muito engraçadas que passam o dia ouvindo brega rasgado enquanto tomam uma pinguinha dividindo com o santo pra se animar.
Muita coisa acontece em Barreiros, mas só os moradores de lá não vêem. Tem marmanjo brigando por causa de 10 centavos e dizendo que vai matar o outro com uma facada no meio dos quartos. E teve muita morte por causa de mulher também. Tem um tal de Damião Bem, que esse, num tem cristão dentro de Barreiros que não conheça, só eu. Disse que o homem come tanto, mas tanto, que quando ele termina de comer e sai cambaleando de tão pesado, você diz que ele vai morrer, aí ele escuta, volta tropeçando, chega pra você e diz assim: "só se for de fome, dona moça, só se for de fome..."
Pois é, essas coisas só existem lá na minha terra. Em Barreiros você leva menos tempo pra chegar em casa, e sempre encontra um ou outro conhecido no trajeto, isso quando o número não triplica e você perde mais de hora na rua conversando água.
Agora tem uma coisa interessante, que quando você sai de lá pra vir estudar em Recife e volta, parece que enricou, porque se você não falar com o povo, ninguém fala com você. Vez ou outra lhe dão aquele sorrisinho aguado de quem tá com medo de perguntar como é a vida na cidade grande, se eles soubessem...
Mas é das coisas marcantes de Barreiros que eu falando. Olhe, veja só, tem uma pedra da moça que diz a lenda, se você passar por perto do rio em noite de lua cheia, vai ver uma moça bonita tomando banho pelada e se você ficar espiando ela se banhar, vai virar pedra também.
Só em Barreiros tem Turma da Latinha com gente mijado nas calças no meio da rua, Bloco Lança Perfume com fantasias bonitas pra gente ver e Pega PKPá com o povo dos sexos trocados. Só em Barreiros tem macaxeira com charque de manhãzinha no mercado depois da noite de farra. E é só em Barreiros que você faz conta e passa anos sem pagar, e o cara da loja ainda lhe vende por cima. É um tal de prego no bar de Jacó, passada na praça da nova fonte, ver de longe a igreja matriz e levar os meninos pra correr no parque em dia de festa. Tem natal com árvore armada, mesa cheia de comida, cara de mãe cansada de tanto cozinhar e champanhe e vinho até encher o papo.
Lá em Barreiros tem amigo da gente casando que a gente nem sabe. Tem penca de mulher grávida parindo tudo no mesmo tempo e moça fugindo quando o galo canta as 3h da manhã. Tem pai dizendo que "você num me enrole, menina!" e os velhos da sua rua contando vantagem encima de tragédias. Tem sempre aquele mercadinho perto da sua casa pra você comprar cocada e cocorote de Mocinha, isso quando ela não lhe chega com uma bolsa de confeito sem nem você pedir. Tem rapaz que era menino quando você saiu de lá e sempre a mesma rádio transmitida para todo o litoral sul tocando as mesmas músicas 8 vezes por dia. E tem recadinho de amor pela rádio, e de saudade da mãe por gente que mora no engenho Camucim. Tem sempre aquele malandro que chega pra lhe chamar de amigo e pede um cigarrinho de vez em quando.
Olhe que lá em Barreiros tem uma trama de gente intrigueira falando da sua roupa, quando você passa. E tem manuê, castanha, canjica e pamonha que lembram o cheiro da casa da sua avó em tempo de São João, milho assado, milho cozido, beiju de massa, beiju de goma, bolinho de goma, farinha branquinha, feijão de corda, feijão branco, charque da boa, queijo do bom, acerola, cajá, seriguela, maracujá, mamão, goiaba, tudo fresquinho pra você fazer suco na hora do almoço e mãe dizendo pra você não chupar manga e depois beber leite quando chega quente da rua.
Lá em Barreiros todo dia tem cara de feriado, porque curiosamente, lá é sempre dia de comemorar. E tem sensação boa depois do banho, de casa cheirosinha e ventinho bom batendo no seu rosto, não tem cheiro de fumaça invadindo a casa toda hora.
Lá em Barreiros com certeza é o melhor lugar de se viver. Tem um ar de cama de mãe quando você olha pro quarto dela, e alguma coisa lhe puxa pra deitar no lençol limpinho que ela acabou de trocar. E tem os gritos da sua mãe reclamando com a sua irmã por causa das bagunças. Tem cachorro que late, mas você não tem medo dele, porque são do seu pai. Tem contos de caça e pesca, tem tatu e tejo, e tamanduá também. Tem os vizinhos mais velhos rezando pros santos e procissão na rua com o padre e as beatas cantando alto. Tem chuva que nunca estraga carnaval fora de época porque todo mundo continua dançando na lama.
Lá em Barreiros a vida é muito boa, e ai de quem me disser que pra lá não volta nunca mais.

3 comentários:

Anna Costa disse...

tabica minha amiga!!!! ameeeiiii seu texto e já estou imprimindo para numa futura oportunidade o usar em minhas aulas de português!!!
parabéns, vejo que assim como eu não parei de escrever poemas, você não parou de escrever bons textos.
Parabéns Karlinhaaa!!!!!

Boi disse...

Que lindo carlinha, ficou muito bom mesmo parabéns

Palavras ao Vento disse...

Lindo e real, sou suspeita pra falar né, perfeito.